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Felicidade Interna Bruta (FIB), ou a medida de progresso dos seres humanos, e não do dinheiro.

postado em 16 de nov de 2009 10:51 por Lucien C.
10 de Novembro de 2008

tadeu_fessel

Tive o prazer de estar presente a uma das conferências mais vibrantes entre as muitas das quais já participei. A I Conferência Nacional sobre FIB, Felicidade Interna Bruta... Índice desenvolvido no Butão e que já havia despertado meu interesse; pensei, talvez umas 100 pessoas, meio “ripongas”, esotéricas e alguns como eu, curiosos e abertos a qualquer nova idéia ou ensinamento. Primeiro fui a duas unidades do SESC e os ingressos haviam se esgotado (ah! aquelas cento e poucas pessoas. Danadas! Foram mais rápidas!!)
Dia do evento. 29de outubro, 9:00 da manhã uma amiga querida consegue o tão desejado ingresso. Mais de mil pessoas se acotovelavam e outras tantas disputavam os ingressos que algumas pessoas haviam comprado e tinham colocado à disposição. Well, mais de mil pessoas, alguma coisa mudou de fato nesse mundo. Só pude me sentir...feliz por estar ali.
Vou tentar resumir (sou péssima nisso!!) minhas anotações, intercaladas com um resumo do Instituto Ethos. Espero que o texto desperte em vocês, assim como despertou em mim, um profundo respeito por um grupo pensante, não tão pequeno como eu a princípio imaginei, levando a sério e levantando uma bandeira tão séria e cara a toda Humanidade: A busca pela tal felicidade.
Apesar de ser usado mundialmente para medir o desempenho econômico dos países, o Produto Interno Bruto (PIB) é um índice capenga. Destruir a Amazônia e transformá-la em móveis, pasto e plantação de soja, por exemplo, parece um bom negócio. Isso faz aumentar o PIB, que é tão somente um indicador das riquezas materiais de um país, mas que ignora, solenemente, a perda dos recursos naturais e os desastres sociais que essas atividades provocam.

Há várias tentativas em todo o mundo de criar índices que possam medir o quanto uma sociedade está evoluindo, de maneira sustentável, na direção de proporcionar uma vida digna e confortável a todos os seus integrantes. Um deles é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), usado pela Organização das Nações Unidas, que leva em conta o PIB per capita, a longevidade das pessoas e sua educação (avaliada pelo índice de analfabetismo e pelas taxas de matrícula nos vários níveis de ensino).

Mas foi no minúsculo Butão, país encravado na Ásia aos pés da Cordilheira do Himalaia, que surgiu, há mais de trinta anos, o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB), em inglês, GNH (Gross National Happiness) que engloba não só o crescimento econômico, mas também as dimensões sociais, ambientais, espirituais e culturais do desenvolvimento, em resumo, o viver bem. Nosso guia sobre o FIB foi Karma Dasho Ura, coordenador das pesquisas sobre a FIB no Butão, que explicou como é composto esse índice: "Analisamos as 73 variáveis que mais contribuem para a meta de atingir o bem-estar e a satisfação com a vida".

Essas variáveis estão abrigadas em nove itens gerais:
1. Bom padrão de vida econômico
2. Gestão equilibrada do tempo
3. Bons critérios de governança
4. Educação de qualidade
5. Boa saúde
6. Vitalidade comunitária
7. Proteção ambiental
8. Acesso à cultura
9. Bem-estar psicológico

Segundo Dasho Ura, esse índice foi e vem sendo desenvolvido a partir do profundo desejo do rei do Butão de criar uma sociedade iluminada na qual o bem-estar e a felicidade de todos é o grande propósito da governança.
Segundo ele, existem muitas deficiências no PIB que deveriam ser levadas em consideração, como por exemplo:
• Faltam distinções qualitativas
• Não existe relação entre consumo e conservação do meio ambiente
• Não mede o capital humano, natural e social
• Subestima o tempo de lazer necessário aos trabalhadores
• Em resumo, é um registro sobre resultados econômicos. Ponto.

Um dos dados levantados por eles, lá no Butão e já com o acompanhamento e interesse da ONU, bens preciosos como a família, os amigos, a segurança, a criatividade e o significado da vida, não aumentam acima de determinado nível de riqueza. Ou seja, ser mais rico do que o necessário não traz como contrapartida o aumento da felicidade em relação àqueles bens.
Para Dasho Ura, a sociedade de PIB valoriza os prazeres sensoriais, dependentes de estímulos externos vinculados ao aumento de bens materiais.
A sociedade de FIB, ao contrário, busca o prazer interior, o exercício de busca de si mesmo enquanto sujeito, bloqueando, segundo ele: “os estímulos sensoriais e o palavrório mental”. Esse treinamento para a tranqüilidade e o contentamento, a partir das garantias mínimas de bem-estar material e mental, tornam-se traços de personalidade. Ou seja, o sujeito liberta-se da proliferação dos desejos materiais.
Alcançar e proporcionar esse bem estar psicológico orienta o planejamento integrado de todos os ministérios do Butão, incluindo as dimensões objetivas e subjetivas, levando em consideração as seguintes variáveis:
• Acesso à cultura
• Proteção ao ambiente no entorno
• Vitalidade comunitária
• Educação de qualidade
• Bom padrão de vida econômica
• Boa governança
• Boa saúde
A pergunta que não quis calar: Como aferir cada dimensão? Através de metas quantificadas, pesquisa junto à população, aferição dos dados e follow-up das metas. A criação de indicadores é contínua e permanente e é ferramenta para a seleção de programas prioritários, mas sempre integrados, que favoreçam a FIB, ou seja, à meta da felicidade coletiva.
Exemplos de indicadores, para não parecer que o FIB é uma utopia saída da cabeça de um monge em meditação, por dois anos (rsrsrsrsrs):
• Taxas de emoções positivas e negativas (situações de estresse, raiva, satisfação com a vida, auto avaliação da saúde física e mental, tempo para práticas espirituais, compaixão, calma, frustração, etc.)
• Taxa de espiritualidade (tempo para prática de meditação, autodesenvolvimento para tomada de decisões na vida, reflexão, percepção da interdependência das coisas no Universo, etc.).
• Taxa de gerenciamento do tempo (tempo para um bom sono, para a socialização, para práticas comunitárias, para o desenvolvimento pessoal, para os cuidados pessoais, para atividades físicas (curiosidade: a meta no Butão é que cada habitante consiga andar de 3 a 4km por dia) etc.)
• Taxa de governança: mede fundamentalmente a competência, honestidade e qualidade do governo em relação a: direitos humanos, confiança no líder, na média, na polícia, nas instituições, enfim) e muito importante também, a taxa de saúde relacionada às ações do governo: A taxa média de dias saudáveis por mês, percebida pelos butaneses (fora TPM, gripe, dor de cabeça, dores em geral) é, pasmem: de 27 DIAS POR MÊS!!!!!
• Taxa de Educação, medindo: gratuidade, prioridade nos conhecimentos locais, históricos e culturais, conhecimento de remédios caseiros, conhecimento ecológico e nutricional, agricultura orgânica e artes em geral (considerada por eles como o maior Capital Humano de qualquer sociedade)
• Outras variáveis mensuradas: a diversidade cultural; a importância de se ter objetivo de vida e valores; como está a resiliência ecológica?; a vitalidade comunitária em termos de confiança, senso de pertencimento, segurança, doação e voluntariado (curiosidade: vocês sabiam que a mortalidade infantil na Índia é metade da nossa, segundo o prof. Da PUC Ladislau Dowbor, também palestrante), por conta da vitalidade comunitária, lá? Tenho um amigo que pode ajudar, conheço um médico, curandeiro, whatever, aqui perto, etc...). Ou seja, só fazemos sentido, mesmo, em redes de relacionamento e perder o senso comunitário pode, de fato, afetar um país.
Concluindo a exposição de Dasho Ura, a grande força da FIB é a transversalidade, ou seja, o pensamento integrado num patamar mais elevado.
Também presente no congresso, Susan Andrews, psicóloga e antropóloga americana radicada no Brasil, apresentou exemplos de como a busca pelo crescimento puro e simples pode ser uma boa escolha para os números da economia, mas um péssimo caminho na vida dos cidadãos. "Nos Estados Unidos, desde 1950, o PIB aumentou três vezes", contou. "Nesse período, o índice de crimes violentos quadruplicou e aumentou o número de pessoas deprimidas e de suicídio entre adolescentes", comparou. "Várias pesquisas mostram que o ápice da felicidade, nos Estados Unidos, foi durante a década de 1950. De lá para cá, houve degradação não no plano material, mas no imaterial".

Outro palestrante no evento foi Michael Pennock, diretor do Observatório para Saúde Pública em Vancouver, no Canadá, que expôs uma situação semelhante em seu país. "Estamos ficando mais prósperos, mas perdendo a sensação de vida em comunidade. Não somos mais felizes e estamos destruindo o planeta", disse ele. Ele tem acompanhado de perto o desenvolvimento do FIB no Butão e, a partir daquela experiência está, junto a uma equipe multidisciplinar, desenvolvendo o Índice Canadense de Bem-Estar, baseado na estrutura da FIB, com o objetivo de repensar noções básicas de progresso a partir da noção de que a prosperidade (essa, ocidental, excessiva!!) não traz o aumento da felicidade nem do bem-estar.
Segundo Pennock, citando Barry Swartz em O Paradoxo da Escolha (recomendo!!), escolhas em demasia diminuem o desfrute.
Por fim, falou o prof. Dowbor, meu mestre há algum tempo nas questões econômicas, que, para espanto de todos, o que se produz hoje no planeta, ou seja, o tal do PIB mundial, seria suficiente para que a renda de cada família de 4 pessoas fosse de R$ 5 mil reais (amazing!). Segundo ele, o cálculo da produção não leva em conta o que se produz, para quem e a que custo? Ainda segundo Dowbor, o tão valorizado PIB, per se, nada mais é do que a dilapidação planetária dos bens mais importantes para a humanidade.

"uma indicação da nossa querida amiga, Mara Cunha - Educadora da rede Cel-lep, e parceira AHA!"
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